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Porque a carne é sana!

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O Terra Madre teve a presença do presidente da Itália, Sérgio Matarella que reconheceu a importância da iniciativa em nível global e declarou que “todo mundo só tem a ganhar com a soberania alimentar”. O movimento Slow Food foi criado em 1986, na própria cidade de Turim, por Carlo Petrini e desde então vem emitindo alertas importantes sobre a discrepância da superprodução de alimentos em nome da saciedade da população mundial. A tradução simplista, “comer devagar ou comida lenta” é só a essência de toda uma causa que vem sendo articulada junto a foodies, entidades, indústria e governos que visa o alimento bom, limpo e justo.

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Segundo Petrini, uma espécie de Dom Quixote, poético e cheio de frases de efeito, já são três décadas de militância confirmando que algo está fora da ordem. “De um lado 800 milhões de pessoas passam fome, de outro mais de 2 bilhões sofrem dos malefícios da superalimentação. Temos produzido muita tecnologia e informação. Mas tecnologia e informação não são de comer! É preciso um retorno a valorização e desenvolvimento da agricultura e pastoreio”. Segundo ele “foi no século XVI que a horta foi parar na porta dos fundos, antes jardim e horta eram uma coisa só.

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Precisamos religar a beleza do plantio e do manejo da terra ao dia a dia, até nas grandes metrópoles para criar uma atmosfera nova de solidariedade social”. Ao contrário do que podem pensar os mais puristas, o movimento não defende o vegetarianismo, mas sim valoriza a convivência harmoniosa entre os reinos animal e vegetal. Porque a terra sem animais vira um deserto e do deserto nada se tira da terra. Aí está uma questão nervosa principalmente na sociedade atual: o consumo consciente da carne. O recado “slow meat” é que se compreenda a essência da vida, que se defenda a diversidade e as diferenças de costumes e que toda carne seja considerada como algo muito nobre.

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O consumo deve ser feito com respeito, em pouca quantidade e com mais qualidade para interromper o ciclo de devastação das florestas, da perda da biodiversidade, do desperdício de água, da mudança climática e dos superantibióticos. Na contramão, o Brasil, celeiro e sede da criação extensiva de animais para todo o planeta, foi citado como um dos protagonistas das distorções do exagero e do desperdício em toda a cadeia, manejo, distribuição, comercialização e rebaixamento das carnes em segunda ou terceira linhas. O cenário apresentado pela organização é crítico: anualmente o Brasil produz mais de 80 milhões de toneladas de milho e outras 86 milhões de toneladas de soja para conseguir 26 toneladas de carne. O maior consumo de carne vermelha per capita do mundo é nosso. Já em matéria de frango ficamos com o segundo lugar, consumindo mais “carne branca” que a Europa e China juntos!!! A carne suína aparece em 5º. lugar e o peixe, que deveria reinar absoluto em um território banhado por mar e rios de ponta a ponta, quase não aparece em nossa alimentação. O gigantismo exigido pela plantação dos insumos que alimentam este ranking nos coroa absolutos no pódio do uso de pesticidas agrícolas: somos o “número um” no ataque às defesas da natureza, não amamos a terra. Por aqui, a cobrança pela sustentabilidade na produção da carne ainda é tacanha. Alguns pequenos movimentos dos grandes frigoríficos são responsáveis por novos produtos, mais “saudáveis ou goumet”, infelizmente custando mais caro. Da produção acelerada e da crueldade aplicada na criação dos animais é bom nem falar. A legislação é branda, antiga e se renova naquilo que interessa à própria atividade. Por isso é importante ecoar a mensagem do Terra Madre e a sua recomendação “slow meat”. O grito de guerra da passeata que tomou conta das ruas de Turim resume a conta: “eles são muitos, mas somos milhões”.

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Então é no quesito “freqüência” que cada um tem o poder de diminuir e frear esta máquina de moer recursos naturais. O churrasquinho do domingo, a picanha do boteco e o bife nosso de cada dia tem que deixar de ser gula para virar degustação, uma iguaria, de vez em quando. A carne deve voltar a ser um mito em nossa vida. Temos que aceitar a contrariedade inerente ao consumo da carne na trajetória e cultura humanas. Afinal, no princípio, o próprio homem era a carne e o alimento de muitos animais. E então a história se inverteu. Ao longo do tempo, novos significados e ideologias surgiram em torno do abate dos animais. Em nome dos deuses, dos poderosos e até do sofrimento, a carne tornou-se oferenda em rituais de sacrifício. Por outro lado, também virou uma espécie de talismã, símbolo de esperança, prosperidade e boa sorte em celebrações da vida. Para alguns é tabu e para outros, prazer. Simboliza privação e ostentação, ofensa e orgulho ao mesmo tempo. Mas no fim do dia, em nome da carne estamos cometendo muitos pecados. Carne não é bandejinha. Não pode ser banalizada assim. É um animal que nasceu e morreu para nos alimentar. Tem que ser apreciada com muita parcimônia e dignidade. Guarnecida de valores assim, a carne é sana!

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Marisa Furtado é especialista em gastronomia, história e cultura e curadora do Madame Aubergine Cozinha & Cultura. Enviada especial ao Terra Madre pelo Jornal Propaganda & Marketing.

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