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Michel e Elisa Papescu deram vida a um sonho criando a Pepper, que hoje tem lojas na rua Leopoldo Couto de Magalhães Jr. e no Shopping Villa-Lobos. Em março último, foram os grandes ganhadores na América Latina do prêmio GIA - Global Innovator Award, que aconteceu em Chicago, e preparam-se para novas investidas prazerosas. Em primeira mão, para você.

Como você entrou para a área de gastronomia?
A Pepper desde o início foi um grande projeto. A idéia sempre foi trabalhar com alguma coisa de que eu gostava, com grande prazer, com o varejo. Sempre tive um DNA muito forte com o varejo. Utensílios de cozinha eram uma idéia que foi confirmada lá pelos idos de 2000, quando a tendência das pessoas de se voltarem para casa ficou muito forte. Tudo remetia à casa, como um lugar agradável para se estar e receber pessoas. Pensamos em trabalhar nesse ramo, vender utensílios domésticos de forma agradável, para quem compra e para quem vende. Não foi por acaso. A idéia nasceu. O passo seguinte foi evoluir a idéia, o nome, sua representação no segmento. Pepper foi um nome pesquisado, é fácil, é quase musical. Assim como a sua representação como logo é atrativa. Se não fosse Pepper seria Taste. E, por coincidência, no jantar do GIA (Global Innovator Award), um dos cinco vencedores da noite foi uma loja chamada Taste. Tudo foi arredondado até nascer pequeno e evoluir. O projeto da Pepper demorou alguns meses para ficar pronto. O ponto foi estratégico. A Pepper começou no Tatuapé, o que nos protegeu da concorrência que, na região, era basicamente nula. Deu tempo de aprender, de tomar firmeza, para daí abrir o ponto na rua Leopoldo Couto de Magalhães Jr. Isso nos ajudou a crescer e acumular muito know-how. Porque é fácil você abrir um negócio maior e ir tocando. Foi uma semente que deu certo. Foi assim que a Pepper nasceu, em maio de 2001.

Como você encara o desafio de ser empresário no segmento?
Ser empresário no Brasil é como tudo na vida: existem "ônus e bônus". O maior problema que toda microempresa enfrenta está na mão-de-obra e nos impostos. O tempo todo você trabalha para sanar essas áreas. Isso porque é difícil achar um vendedor que atenda muito bem ao cliente. Quando você acha alguém que tem potencial e treina, de repente, a pessoa se acha muito boa para ficar com você e resolve mudar. É normal esse giro. Eu mesmo emprego pessoas de outras empresas. Mas o que eu considero mais grave é o "desapego" das pessoas. Porque uma empresa é basicamente um grupo de pessoas trabalhando juntas. Por isso cada um aqui é como se fosse um sócio, ganha tanto quanto eu ganho. A pessoa ganha melhor quando o resultado é melhor. E essa falta de percepção parece que é até meio congênita no brasileiro.

E como surgiu a Pepper?
A Pepper surgiu da idéia de criar uma coisa nova. Nós tínhamos uma idéia de que o mercado de coisas, objetos e utensílios para casa cresceria. Isso basicamente pela grande insegurança, que vinha levando as pessoas de volta para casa, o oposto da década de 80, em que muitos elementos nos tiravam de casa e nos levavam para a rua. Fomos criados por uma geração muito liberta, mas acabamos nos tornando mais conservadores. Esse movimento indicava uma volta para casa, para as reuniões em volta da mesa e, nesse sentido, havia uma falha no mercado, uma grande possibilidade de negócio. Nós sabíamos que o varejo era o nosso grande negócio, e a gastronomia, o veículo para fazermos isso de uma forma mais agradável. Mais que cozinhar, o desejo passou a ser o de degustar. Tudo mudou. Agora o cozinheiro virou chef. O chef não é um simples profissional. Ele é um amante do que faz. É o movimento entre criador e criatura. É tudo muito novo. Todo dia aparece gente nova em nossas lojas, física e virtual. São pessoas de outros lugares que ainda não sabem que existe um lugar tão bacana para comprar coisas de cozinha. Hoje, é possível comprar um jogo de copos um pouquinho mais caro que os de requeijão, muito usados por longo tempo, e dar um tom fashion à casa. Isso muda tudo. Muito mais do que consumidores, estamos trabalhando esses diferenciais. Mostramos para as pessoas que até uma água pode ser mais gostosa quando servida em um copo legal. "Brigamos" em duas frentes todos os dias: trazer o máximo de clientes para as nossas lojas e convencer as pessoas de que vale a pena deixar a casa, a cozinha, enfim o dia-a-dia mais bonito e agradável. E fazemos isso com um visual, um atendimento, uma atenção especiais.

Qual é o perfil do seu público?
Idade não é o que define nosso público. É mais o interesse das pessoas. E tem toda essa glamourização em torno da cozinha, dos chefs e da gastronomia. Hoje existe uma mudança de conceito e, por outro lado, chega um momento em que as pessoas passam a viver sozinhas, passam a preparar a sua própria comida. Essas pessoas têm uma visão diferente, apreciam e compram objetos bonitos e de bom gosto. Para atender aos interesses de nossos clientes, na loja, oferecemos o que há de melhor no mundo, sempre pesquisamos o que existe de diferente e que pode se tornar uma tendência na cozinha. Por exemplo, na oportunidade que tivemos de ver o que acontece de melhor, agora no GIA, em Chicago, constatamos que são raríssimas as coisas que nós não temos aqui. E talvez mais pela marca do que pelo produto. E o melhor. Não é o caro, não é o barato. É o resultado do nosso negócio.

O que muda agora que a Pepper foi a grande ganhadora do Global Innovator Award?
É importante contar sim o que aconteceu lá em Chicago, na entrega do GIA, do qual saímos vencedores como uma das mais inovadoras lojas de cozinha do mundo. O Brasil tem poucas lojas com essa cultura que estamos implantando. Ser o ganhador do Brasil foi uma honra. Primeiro porque não é você que inscreve. Você é indicado. O prêmio é o resultado de uma pesquisa que é feita mundialmente, algo em torno de 20 correspondentes. Basicamente, eles entrevistam os formadores de opinião do país sobre a atuação das empresas/lojas do setor que mais se destacaram em termos de inovação. A gente ganhou a primeira fase no Rio de Janeiro, que já valeu muito. Há muitas lojas bacanas, que respeito, que ainda não ganharam o prêmio. Então, preparamos um dossiê, que foi a Chicago, para ser apreciado por pessoas do mundo todo para a eleição. Antes da abertura da grande feira e do GIA, evento paralelo, o júri se reúne novamente e define os vencedores. O resultado é revelado um dia antes da feira. Como premiação do setor, reconhecimento, não há nada mais a desejar. É o auge. Fica só a enorme responsabilidade de manter. Você se torna uma referência mundial e isso tem um peso, além da enorme onda que se faz em torno do acontecimento. Isso é muito estratégico no sentido de decidir o que fazer nos próximos anos

Quais são os próximos planos para o futuro?
Obviamente, capitalizar essa deferência, esse conceito de inovação. Mesmo tendo uma estrutura enxuta, a Pepper é percebida de uma forma bastante diferenciada em relação à qualidade. Esse prêmio é uma ferramenta importante como trampolim, por exemplo, para abrir outras Peppers menores pelo Brasil. Porque, afinal de contas, nós não temos tantas cidades grandes com alto poder de consumo como nos Estados Unidos: Chicago, Nova York, Seattle, San Francisco... Então, podemos pensar em alguma coisa parecida com uma franquia, através de empreendedores que queiram evoluir no segmento de gastronomia e que estejam dispostos a oferecer o melhor serviço, além de assistência pós-venda, que engloba manutenção e guarda. Essa é uma forte tendência que logo, logo, vai ser abraçada por nós. Eu acho que o equipamento influi no resultado final da elaboração de uma refeição. E acho que isso falta no Brasil. Não só como ferramenta, mas também como beleza e design. Nós descobrimos que para trazer gente de longe, ou para fazer o telefone tocar, ou vender pela internet, tudo tinha que ser muito atraente.

Como você se ocupa no seu tempo livre?
Eu gosto muito de ficar com a minha família e de ficar na cozinha. Mas tenho andado muito atarefado... Nessas horas que sobram, o prazer está até em comer um pouquinho de pipoca, parar um pouco, pegar os pequenos, enfim... Não há ocupação melhor para o meu tempo livre.

O que você come em casa?
Não somos neurastênicos nem tampouco especialistas em cozinhar. No geral, coisas gostosas, leves e rápidas. Para passar mais tempo apreciando do que preparando. Nada melhor do que uma boa panela; ela facilita a vida, não há necessidade de ficar horas lavando, lavando... Eu tenho sorte de ter coisas boas em casa. Todo dia gostamos de experimentar coisas novas, sem fazer grandes compras. Procuramos e trazemos o que é agradável. É usar para mudar o mood.

Você cozinha?
Eu cozinho, mas não sou chef. O chef é aquele cara que fecha o olho, pega o ingrediente e a mão dele abre o tanto certo para temperar as coisas. Eu dependo mais das ferramentas. Eu vou lá, erro e tento. Minha esposa é mais estudiosa, lê mais, tem mais técnica.

Um gosto inconfessável na cozinha?
Nem temos "trash food" em casa. Somos até meio espartanos. Relembrando os gostos da infância: macarrão com salsicha de peru e molho de tomate. É delicioso! Até os cachorros, o gato, meu filhinho, minha esposa, todo mundo adora.

Se o mundo estivesse acabando, esse seria seu último prato?
Acho que eu ia deixar cozinhando em fogo baixo para demorar um pouco mais (risos).

Você tem uma receita preferida de berinjela?
Não. Isso porque não como muito verduras e legumes. Mas minha esposa ama ratatouille. Sempre fazemos em casa.

Quem foi Madame Aubergine? Quem influenciou você de alguma maneira a entrar para a área de varejo em gastronomia?
Minha avó fazia receitas incríveis da antiga Iugoslávia. Ela fazia uma forma de mil folhas com queijo e raspinhas de cenoura ou carne, tipo um pastelão, chamado burek. Era isso, a massinha de matzá e o sungato. Tinha até briga. Eu fazia questão de ir buscar o prato na casa dela para comer uma forma todinha. Isso era o melhor, mas, infelizmente, a receita se perdeu com a vovó. O que se salvou foi o sungato, que a minha mãe faz até hoje. Era aquela comida farta de mama iídiche. Você sabe a diferença entre a mama iídiche e a italiana? Enquanto a primeira fala "come senão eu me mato", a outra vai direto ao ponto: "mangia senão eu te mato!" (risos).

 
 





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