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Marie-France Henry nasceu em uma família de verdadeiros restaurateurs, Monsieur Roger e Madame Fortunée Henry. "Herdou" o La Casserole por amor e desde os anos 80 administra a casa. A partir daí, além de manter os clássicos que arrastam gerações há mais de meio século para o curioso Largo do Arouche, vem sendo responsável por inovações e por uma pesquisa de aromas e sabores de muita consistência. O resultado é que o La Casserole continua sendo um pedacinho delicioso da França na capital.
MA: Como foi o começo de tudo? Como seus pais decidiram iniciar o La Casserole? Por que o Centro, o Largo do Arouche?
MF: A família do meu pai sempre foi da área de gastronomia e hotelaria. Quando ele veio para São Paulo, gerenciou o Hotel Esplanada, que ficava ao lado do Municipal, um hotel bem chique. Foi em 1954 que resolveu abrir o La Casserole. Foi escolhido o Centro porque não havia movimentação em outros bairros. Era uma década em que o Centro era tudo para a cidade.
MA: Como nasceu seu interesse em continuar a saga da família?
MF: Gostei da "saga"! Quando meu pai decidiu que ia parar de trabalhar, ele tinha duas ideias na cabeça: ou eu tomava a frente do restaurante ou ele tornava sócios alguns dos funcionários mais antigos. Naquele momento (mais ou menos 1985), o restaurante era apenas um lugar aonde eu levava os meus amigos. A gente só curtia, comia bem e ponto final. Eu nem imaginava assumir o restaurante. Mas quando meu pai veio realmente falar comigo, me deu um pânico pensar que, um dia, aquele lugar poderia não ser mais nosso. E eu seria obrigada a dizer que "este restaurante foi dos meus pais...". Na verdade, o que pegou mesmo foi o coração...
MA: Destaque alguns dos principais momentos e "causos" curiosos nestes 54 anos...
MF: Agora, posso dizer sorrindo, mas o meu começo no Casserole foi "punk". Afinal de contas, eu não era ninguém, além da filha do Sr. Roger. As pessoas nem olhavam direito para mim, não me davam a menor bola. Nem os clientes, nem os funcionários. As pessoas só se dirigiam a mim com comentários do tipo: "não pode fazer isto, não pode fazer aquilo, não pode mudar os quadros, a decoração, a comida", enfim... Fiquei travada e demorei um tempo até conseguir encontrar o caminho e a sintonia.
MA: A que você atribui meio século de sucesso?
MF: Acho que ao fato de ter encontrado esta sintonia que hoje faz do Casserole um clássico que está constantemente se renovando, se atualizando, procurando temas para cardápios especiais. Além disso, acho que o restaurante tem uma aura de hospitalidade e romantismo. As pessoas sempre têm uma história de amor, de namoro, de comemoração, de casamento, enfim... Histórias lindas que fazem parte das paredes do Casserole.
MA: O que é mais difícil? Manter ou renovar a tradição?
MF: Renovar, é claro! Manter é importante, mas só manter é igual a quase morrer...
MA: Fale um pouco sobre inovações no cardápio, como o atual festival da comida franco-asiática.
MF: Faz parte da minha incessante procura por temas culturais para embasar os cardápios especiais. Hoje é até um pouco batido falar que gastronomia é cultura. Mas na verdade esse é o mote das minhas pesquisas. Já fizemos cardápios baseados em Dalí, em Picasso, em Astérix etc. Este cardápio franco-asiático mostra um pouco esta história da fusion, que parece moderninha, mas não é nem um pouco. Fusion foi o que aconteceu quando os franceses chegaram ao sudeste asiático, no século XIX, e tiveram que se adaptar aos hábitos de consumo locais, com ingredientes como coco, baunilha, especiarias, amendoim e caju.
MA: Qual é a sua visão sobre a alta gastronomia no Brasil?
MF: Cada vez mais presente no cenário, não só paulistano como brasileiro. Estive em Salvador e fiquei muito surpresa com tantas boas casas abertas desde o ano passado.
MA: Por que as mulheres francesas não engordam?
MF: Engordam, sim, se não mantiverem o famoso e velho bom senso. É fácil: se um dia você enfiou o pé na jaca, no outro você fica na saladinha...
MA: Qual é o ponto de equilíbrio entre alimentação saudável e joie de vivre?
MF: O mesmo que acabei de falar.
MA: Qual é a relação do brasileiro com a comida francesa?
MF: Sofisticação.
MA: Quais são os próximos desafios?
MF: Manter a criatividade: sempre!
MA: Qual é a sua dica para quem está começando na área?
MF: Paixão!
MA: Como você se ocupa no seu tempo livre?
MF: Meus dois labradores queridos: o Preto e a Bola.
MA: O que você aprecia comer em casa?
MF: Comidinha de casa, mesmo. Aliás, na minha casa não tem comida Casserole. Tem almôndegas, peixe assado recheado, farofinha, arroz e feijão preto etc.
MA: Um gosto inconfessável?
MF: Amo dormir muito.
MA: Se o mundo terminasse hoje, qual seria o seu último prato?
MF: Um prato que eu pudesse dividir com todas as pessoas que eu amo: um cassoulet, uma paella, uma bouillabaisse...
MA: Qual sua receita preferida de berinjela?
MF: À parmegiana.
MA: Na sua vida, quem foi a "Madame Aubergine"?
MF: A minha avó paterna, que fazia espaguete com gruyère todas as vezes que eu chegava na casa dela em Paris. Ela me levava para passear em todos os cantos da cidade: zoológico, circo, cinema, para comer crepes na rua, fazer compras na liquidação de inverno... Delicada e sempre presente, me perguntava o que eu queria comer, comprava croissant na boulangerie, pain au chocolat...Uma verdadeira avó com o melhor dos colos. |
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