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Apesar de ter se graduado em Direito, a maior parte de seu conhecimento é fruto de sua característica "autodidata". Ainda assim, tem formação nos EUA, na Grand Rapids Community College, especialização na École Lenôtre, na França, além do diploma de padeiro no SENAI de São Paulo. Guiado pela curiosidade e pelo interesse no assunto, desenvolveu suas próprias técnicas que combinam trabalho, amor, precisão e arte. Trabalhou com o chef Laurent Suaudeau como chef de confeitaria, como chef executivo de confeitaria do Hotel Hilton São Paulo Morumbi. Trabalhou durante anos como consultor do grupo Fasano e em 2004 assumiu o cargo de chef executivo de confeitaria e padaria do grupo. Aclamado por diversas vezes pela revista GULA com o prêmio de Melhor Chef de Confeitaria da Cidade de São Paulo, atualmente é o chef executivo e proprietário da Sódoces (www.sodoces.com.br). Produz as sobremesas para o grupo Fogo de Chão, grupo Fasano, Nespresso, Sushi Kin, Hotéis Marriott, Renaissance e Caesar Park, entre muitos outros.
Madame Aubergine: Como você entrou para a área gastronômica? Flavio Federico: Como todo mundo de família italiana, cresci ao lado do fogão, ajudando minhas avós no preparo do almoço de domingo. Ao contrário do modismo de gastronomia de hoje, nunca quis trabalhar em cozinha: é quente demais, barulhento demais, sem fins de semana, feriados etc. Mas não deu certo e acabei lá. Comecei a fazer comida para os amigos na praia, em sítios etc. aos 14, 15 anos. Depois, vieram os bolos e doces para festas e, finalmente, larguei o Direito para ser lavador de panelas em um hotel. A essa altura, já não tinha mais volta.
MA: Qual é a sua visão da pâtisserie no Brasil? E no mundo? A supremacia francesa continua? FF: A confeitaria, como gosto de chamar, pois estamos no Brasil, é algo muito grande e cheio de coisas a serem descobertas. Ainda achamos que a sobremesa é apenas sobremesa e pronto - ledo engano. Fora daqui, o status dos doces é algo imenso e com tanta força quanto a cozinha salgada. O brasileiro é que não sabe dar valor. Meu trabalho sempre foi e sempre será de valorização do nosso em primeiro lugar. Acho estúpida essa defesa do estrangeiro pelos brasileiros. No final, se ficarmos achando que eles são melhores, vamos morrer na praia, pois seremos sempre tupiniquins, e eles, sempre estrangeiros. Preste atenção em quantos gringos vêm para cá para levar nossos sabores embora. Quando fiz uma trufa de caipirinha em 1992, cachaça era pinga e pinga era coisa de pedreiro em boteco. Ninguém queria comer. Hoje se faz qualquer coisa com sabor de caipirinha. A França tem muita força, ainda na confeitaria, mas a supremacia no mundo não existe mais. O respeito sempre haverá, mas Japão, Espanha, Bélgica, China e até o Brasil têm excepcionais profissionais... Se cuida, pR!
Devemos sempre respeitar a todos, mas, em primeiro lugar, respeito a mim mesmo e a minha dedicação à confeitaria.
MA: Alguma nova tendência? FF: O Brasil é a tendência no mundo. Sabores e cores incríveis. Só o brasileiro é que não vê e, quando vê, só dá valor se um gringo estiver utilizando. Viajo várias vezes por ano para dar aulas fora do país, para EUA, Europa etc. Não ensino a fazer bolo de chocolate com framboesas, ensino a fazer quindim.
MA: Como você define a sua linha de trabalho atualmente? FF: Como eu disse, minha confeitaria é a de respeito ao Brasil, trazendo de volta velhas receitas e técnicas para um patamar mais moderno e contemporâneo. Sabor é tudo. Não adianta ser lindo se for ruim. De qualquer forma, meu trabalho é de amor à profissão, é fazer as pessoas sorrirem, é deixar algo para os meus netos. Não faço nada esperando agradecimento nem reconhecimento. Prefiro ver alguém feliz comendo um doce meu pela fresta da porta.
MA: Sua principal característica? FF: Como todo confeiteiro, sou disciplinado e detalhista, às vezes louco. De qualquer forma, sou eu mesmo. Sou que nem o Corinthians: ou você ama ou você odeia. Eu odeio, pois sou palmeirense.
MA: E como nasceu a Sódoces? FF: A Sódoces nasceu da vontade de ver melhores sobremesas em todos os lugares. De fazer as pessoas aprenderem a dar valor para o açúcar e não de achar que açúcar é o mal da humanidade. Como os donos de restaurantes não queriam investir em confeiteiros e confeitarias, comecei a oferecer para eles.
MA: Onde você se inspira para ter ideias? FF: Busco inspiração no Brasil. Nas cores e nas pessoas. Minha vida com minha esposa Ângela (que me atura e me dá forças) também me dá muita inspiração.
MA: Qual é o maior desafio ser empresário na área? FF: Em qualquer área o desafio é o governo e seus impostos absurdos!!
Ser empresário no nosso país é algo de herói. Acho que seria milionário se morasse em outro lugar do mundo.
Tenho, por princípio, fazer a minha parte. Não compro ou vendo nada sem nota fiscal.... NADA MESMO. Na minha loja até o bom dia vai com nota fiscal; apesar de ser cortesia!!
MA: Como isso muda a sua rotina de Chef? FF: Tenho que ter disciplina para não me atolar em papeis e coisas administrativas, pois senão fico fora da cozinha. Meu prazer é a cozinha. Não posso fugir da administração, mas fico bem menos hoje na cozinha que quando era apenas um confeiteiro.
As vezes atrapalha mesmo.
MA: Próximos passos? FF: Expansão da marca.
Se minha marca fosse com nome estrangeiro e eu tivesse sotaque seria mais fácil. Nunca gostei de nada de mão beijada. Gosto de lutar para crescer.
MA: Como você se ocupa no seu tempo livre? FF: Toco bateria desde moleque. Apesar de ter pouco tempo tento me esforçar.
Quando da, mergulho também. Amo a natureza.
MA: O que você come em casa? FF: O que tiver pela frente.
MA: Um gosto inconfessável? FF: Não escondo nada. Acho que como de tudo, e gosto de tudo. Não tenho nada escondido para confessar.
MA: Seu último desejo gastronômico? FF: Praia, acarajé, caipirinha, sorvete de pitanga e depois.... subir para conversar com o criador.... ou descer para ver o tinhoso... quem sabe.
MA: Qual o melhor jeito de comer berinjela? FF: Amo a berinjela recheada com pão amanhecido e anchovas da minha mãe. Odiava quando era pequeno e agora não vivo sem.
MA: Quem foi uma Madame Berinjela na sua vida, alguém que tenha que inspirado você na gastronomia? FF: Minhas avós foram muito importantes na minha vida de cozinha. Porém, infelizmente não viveram para participar da minha profissão. Minha luz e sabedoria na gastronomia é a Dona Mila. Minha linda e amada mãezinha. |
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