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Egidio Silvestri é um entusiasmo só quando o assunto é vinho. Em suas degustações, faz questão de deixar clara sua missão: tornar o ato de tomar vinho para lá de prazeroso. Ao contrário de muitos sommeliers, para ele o conhecimento vem depois e não pode atrapalhar um dos melhores momentos do dia. Saúde e boa leitura!
Madame Aubergine: Quando você começou a se interessar pelo mundo do vinho ? E como surgiu a WinePRO?
Egidio Silvestri: Sempre apreciei vinho. Quando pequeno, nos almoços com meus avós italianos - os “nonos”, enquanto a nona preparava o capelleti, o nono dava aos netos um pouquinho de vinho (só pra molhar a boca...). Já quando saia “ na balada” ou para jantar bebia vinho, o que era diferente dos meus amigos, que consumiam destilados. O contato profissional com o vinho veio em 1980, quando assumi a Área de Vinhos Nacionais e Importados da Diageo ( na época Heublein). Depois trabalhei na Expand, onde pude aprofundar meus conhecimentos em visitas a vinícolas da Europa - Itália, França, Espanha e Portugal e também USA e América do Sul - Argentina, Chile e Uruguai. Além disso, aprendi muito com o Otávio Piva, um dos maiores nomes do vinho no Brasil. Daí decidi pela carreira solo e abri a WinePRO Consultoria, prestando serviço especializado junto aos importadores, revendedores e consumidores, aliando conhecimento técnico e comercial com objetivo de promover o mercado de vinhos. Desde então, também tenho realizado inúmeras palestras dirigidas a consumidores, assim como treinamento técnico especializado para profissionais de vinhos, vendedores, representantes comerciais, compradores, sommeliers, chefs de cozinha, maitres, garçons, atendentes do Carrefour, entre outros. Em 2008, surgiu a ideia do Enoteca WinePRO, um espaço destinado ao mundo do vinho, localizado na Av. Cidade Jardim, que reúne todas as minhas atividades: loja com mais de 800 rótulos, cursos de vinhos e azeites, eventos, palestras e enoturismo.
MA: Como é ser um empresário do vinho no Brasil?
ES: Tem que gostar de desafios, ter paciência, dinamismo, criatividade e paixão e sobretudo encarar muito TRABALHO...
MA: Em relação há 20 anos atrás, o consumo de vinho no Brasil cresceu significativamente. Porque? E no mundo?
ES: O consumo de vinhos depende de cultura e renda. No mundo, a cultura de vinhos já é estabelecida. Tomar vinho, mesmo no verão, faz parte do dia a dia. Já no Brasil, temos que promover a cultura do vinhos, ensinar, desmistificar a bebida, para que ela seja apreciada sem complicações pelas camadas mais variadas da sociedade. Isto demanda um tempo, mas a mídia de massa tem estado ao nosso lado, bem como a preocupação do consumidor com a saúde, uma vez que é comprovado que tomar vinho moderadamente faz bem ao coração.
Com relação ao consumo no mundo agora está estável devido as crises econômicas recentes. No Brasil, porém, temos verificado um significativo crescimento pelo aumento do poder aquisitivo e interesse do consumidor.
MA: O ritual e o consumo do vinho tem assumido um tom menos formal. Porque?
ES: Tomar vinho tem que ser prazeroso acima de tudo. E o que é formal é chato, enfadonho. Tomar vinho tem que ser um ato alegre, jovial, uma experiência agradável, sem no entanto, perder o “glamour”.
MA: Porque o Chile vem se destacando tanto? ES: O Chile conseguiu se posicionar no cenário produtivo aliando qualidade a preços acessíveis, aproveitando as favoráveis condições climáticas, investimentos interno e externo e muito trabalho de divulgação e promoção internacional. MA: Como você vê o Brasil enquanto produtor?
ES: Temos muito a aprender com os demais países produtores. Os empresários de vinhos do Brasil já entenderam que, para participarmos deste negócio no mercado internacional, são necessários investimentos para produção de vinhos de qualidade. E para tal, precisamos mão de obra especializada, entenda-se enólogos, e modernos modos de plantação e vinificação, já que hoje em algumas vinícolas eles estão totalmente ultrapassados.
MA: E como mercado consumidor?
ES: O brasileiro é um “expert” em vinhos na medida que conhecer vinhos é sentir as sensações desta bebida. Nós temos um excelente paladar e olfato aguçados, pois temos uma culinária riquíssima e variados temperos, o que dá ao brasileiro condições de apreciar os mais refinados vinhos. O que falta é um pouco de cultura do vinho, informações sobre os tipos, como servir, como harmonizar etc.
MA: Qual a preferência do brasileiro em relação ao vinho?
ES: O brasileiro, na sua maioria, prefere espumantes frescos, leves e para as mulheres os mais doces, tipo demi sec. Quanto aos brancos e tintos, a procura são para os mais frutados, com médio corpo, vinhos jovens.
MA: E as mulheres? Estão tomando vinho?
ES: Estão tomando e muito! Um fato interessante é que estas novas consumidoras preferem os vinhos mais encorpados, estruturados, o que até algum tempo atrás transitavam apenas no território masculino.
MA: Pelo seu paladar, cite 3 rótulos preferidos do velho mundo? E do novo?
Velho Mundo (Vinho/tipo/país/região/produtor)
Vinho Tinto Português Meia Pipa – Terras do Sado – Bacalhoa Vinhos
Espumante Espanhol Cava Cristalino Rose Brut – Penedes -
Vinho Branco Santa Cristina – Toscana – Antinori
Novo Mundo (Vinho/tipo/país/região/produtor)
Vinho Tinto Chileno William Cole Pinot Noir – Vale de Casablanca – William Cole
Espumante Brasileiro Fausto Brut - vale dos Vinhedos - Pizzato
Vinho Rose Argetino Jean Bousquet – Tupungato – Jean Bousquet
MA: Como você vê a harmonização entre vinho e menú?
ES: A harmonização é algo muito complexo e pouco conhecido pelo consumidor.
Do ponto de vista prático e profissional é preciso flexibilização para não complicar com muitas regras e dificultar o consumo e a vida do consumidor.
MA: Como as pessoas que não são especialistas podem fazer suas escolhas sem “errar’ feio na hora de combinar vinho e prato?
ES: Uma forma de harmonizar é procurar perfis semelhantes entre os dois, ou seja, vinhos leves com pratos leves vinhos médios com pratos médios e pratos pesados com vinhos encorpados. Na dúvida procure vinhos de médio corpo e frutados pois acompanham quase todos os pratos.
MA: Cite dois livros úteis para quem está começando a conhecer o mundo do vinho, tanto pelos aspectos históricos, como para aprendizado de serviço e tipos de vinho
ES: Tintos e Brancos, do nosso colega Saul Galvão, in memorian – Editora Conex e
Vinhos, o essencial – Ivan Santos - Senac Editora
MA: Quais são os seus planos para o futuro?
ES: Consolidar a WinePRO abrangendo mais serviços tais como enoturismo, escola de sommeliers e clube de Vinhos.
MA: Um gosto inconfessável.
ES: Capeletti ao sugo gelado, no dia seguinte, quando o molho de tomate se apodera da massa, regado com um grande azeite.
MA: Qual sua receita preferida com berinjela? Que vinho harmoniza melhor com ela?
ES: Nunca me esqueço do ratatouille que um jovem produtor de vinhos franceses preparou na SBAV - Sociedade Brasileira dos Amantes do Vinho. É preparado com berinjelas, abobrinha, tomates, cebolas, pimentão vermelho, coentro e manjericão, cortados em cubos ou rodelas, temperados com alho e cebola e fritos no azeite. Para acompanhar este prato típico da região da Provence na França, recomendo um bom vinho francês aromático e frutado de médio corpo, como um Cotes Du Rhones, ou um Borgonha Pinot Noir. UAU!
MA: Seu último desejo gastronômico?
ES: Hambúrguer de filé na ponta da faca, com queijo cremoso e funghi secchi acompanhando galette de batata inglesa do Di Bistrot.
MA: Como você se ocupa no tempo livre?
ES: Procuro fazer atividades físicas como o tênis e caminhada. Um bom livro sobre vinhos ou um bom e velho cineminha.
MA: Você tem alguma “ Madame ou Monsieur Berinjela” na sua vida, uma pessoa que o influenciou diretamente no seu envolvimento com o vinho e a gastronomia?
ES: Considero muito o Carlos Cabral, um amigo, um ídolo, que sempre me ajudou e me orientou sobre os negócios do vinho. |
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