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  A Chef Benê Ricardo reinventou sua persona simultâneamente a reinvenção da atividade da gastronomia no Brasil. Simples de origem e grandiosa de talento, a Chef conquistou seu lugar ao sol, numa época em que mulheres cozinheiras profissionais e, mais recentemente, chefs, eram raridade. Sobretudo, Benê é feliz com o que faz: "eu nunca imaginei que fazer um simples arroz e feijão pudesse mudar a vida de uma pessoa, como mudou a minha".

M.A.: Quando você começou a se interessar por gastronomia?
B.R.: Quando a gente não tem oportunidade, a gente cria. No interior de Minas, minha avó fazia azeite de mamona para iluminar o Santíssimo na igreja. No fim de semana ela também fazia biscoito de broa e leitão para as festas dos fazendeiros. E eu sempre vendo. Já a minha mãe, lavava roupa para fora e costurava roupa para homens , até que faleceu, quando eu tinha 7 anos de idade. Então eu cresci nesta lida, filha única, na casa dos meus avós, até que a vovó também faleceu. Eu fui alfabetizada já era muito grande. Foi quando uma família me trouxe aqui para São Paulo para trabalhar, onde eu cozinhava a comidinha do dia a dia, mineira, arroz, feijão, costelinha... Então eles se mudaram e eu fiquei e fui convidada para trabalhar com outra família, desta vez, alemã, em Santana. E lá realmente me tratavam muito bem. Tinha edredon, tinha tapete, tinha flores em volta da minha casinha, rádio, revista, itens de higiene (rsrssr) , revistas, coisas que mudaram a minha vida. Até que em 1974 eles me levaram para a Alemanha, o que também me transformou muito. Por exemplo, esta viagem me ensinou a dar valor a tudo o que por aqui a gente normalmente desperdiça.É por isso que muito restaurante fecha. A gente tem que ser criativo com as sobras, evitar a perda, reciclar. Aprendi a aproveitar a casca de banana para fazer bolinho de chuva, a usar a folha da cenoura para fazer omelete, fazer suflê da folha de beterraba, o porcionamento mais racional por pessoa...Então acho que comecei a valorizar muito a riqueza da nossa terra, foi a minha maior faculdade. Valeu a pena. O que eu percebi é que os estrangeiros gostam muito de ensinar. A gente tem que ensinar quem tem vontade.

M.A.: E quando você decidiu se dedicar a cozinha mais profissionalmente?
B.R.: Bem, foi por acaso. A Revista Claudia lançou um concurso para a gente mandar uma receita. E eu mandei para a Edith Eisler, que acabou virando minha amigona. E daí eu ganhei o concurso , fui num almoço superpomposo e eles acabaram me convidando para trabalhar na Cozinha Experimental da Editora Abril. E eu fiquei deslumbrada, achei chic! (risos). Tive que começar a me virar para ter um lugar onde ficar. Troquei o serviço de uma casa em Interlagos pelo quartinho para morar, para poder trabalhar na Editora Abril. Era demais, eu pegava um ônibus executivo no Aeroporto de Congonhas e descia em frente a editora. Fiquei 3 meses lá. E daí em diante só encontrei pessoas que me ajudaram muito. Trabalhei em outra cozinha de editora, ganhava pouco e então comecei a fazer jantares nas casas, nos fins de semana. E numa dessas vezes, cozinhei para o então Presidente Ernesto Geisel, na casa do presidente da Petrobrás. E dentre os convidados estava um dos funcionários do Hotel Escola São Pedro. E eles me convidaram para fazer o curso. Naquela época, eu já dominava a cozinha germânica. Só que até então, a escola não oferecia hospedagem para mulheres. Eram 25 homens e eu. De novo eu tive que me virar, arranjar um lugar para ficar e fui trocando serviço de casa pela hospedagem. E assim consegui cursar o módulo. E acho que eu acabei abrindo espaço para muitas mulheres, que hoje são a maioria. A dificuldade era dupla, ser mulher e negra. Não era faculdade. Era o curso básico de cozinheiro. Logo que eu terminei, estavam inaugurando o Hotel Maksoud. Eu entrei como cozinheira supervisora do piso "B" que era responsável pelos pré-preparos, alimentação de 2 mil funcionários, entre outros serviços de apoio gastronômico. E lá eu fiquei por quase 10 anos, a partir de 1978. Eu peguei a época áurea do hotel, como a visita de Frank Sinatra, Chefs com o Peter Kutuchian , Payard, etc. Foi lá que eu experimentei pela primeira vez os meandros corporativos e tive que aprender a me superar. E de lá sobraram boas amizades. Michel Darqué , Chef Frasson e o Douglas, o confeiteiro da época, entre outros. Sai do Maksoud e fui fazer um curso do Ibragel, durante a moda dos congelados. Com o Peninha, do restaurante Pitanga, abrimos um restaurante focado em comida congelada. Depois abri minha firma como autônoma, trabalhei para diversas empresas, até me aposentar. Foi então que eu passei a oferecer jantares e banquetes para famílias tradicionais, e aí eu também fui aprendendo com essas pessoas, gastronomia e tradições: comida alemã, comida árabe, italiana, kasher, etc. E até hoje eu faço eventos na Hebraica por conta disso, no Paulistano e em diversos lugares. Depois disso surgiu a Casa Santa Luzia, onde eu já estou há 11 anos, assinando pratos. E tem toda a parte de desenvolvimento de produtos para a indústria de peixes, aves, carnes, supermercados etc. Assim eu vou viajando pelo o Brasil inteiro com o meu trabalho, por feiras, eventos e até já cozinheiro para o programa Fantástico, no quadro de receitas exóticas. Eu acabei realizando aquela receita de iça, a "formiga bunduda". Essas receitas mais originais também estão associadas a minha carreira.

M.A.: Como você vê a transformação da era dos cozinheiros para a época atual, dos chefs?
B.R.: Eu acho isso tudo muito bonito. Só que agora virou muito moda. Mas o povo está muito preocupado com flores no prato e menos com o sabor. A gente não pode perder as raízes de fazer a nossa comida, com muito sabor. Eu fico feliz de ver um jovem na área. Antigamente, havia um certo desconforto nisso, por parte dos pais de aspirantes a cozinha. Isso mudou, eu andei dando aulas na Anhembi/Morumbi e tinha até médicos, engenheiros formados na minha turma de alunos. Eu nunca imaginei que nos últimos 10 anos, que no Brasil ia acontecer uma evolução tão grande, tantas faculdades – São 80 e tal. Mas eu sempre digo: quem faz o cozinheiro não é a faculdade, tem que gostar, ter vocação, o próprio aluno é que se faz. A faculdade só ensina.

M.A.: E porque você é queridinha de todos os chefs da moda?
B.R.: A minha vida mudou muito depois que eu ganhei o concurso Toque d`Or, em 1999, promovido pela Nestlé e pela Sadia, que levava um chef para a França. Ganhei o concurso no Copa, disputando com chefs de todo o Brasil, com uma receita de carneiro, que eu tinha aprendido com uma família da coletividade judaica. Enfim, eu também fui abrindo meu espaço abrasileirando receitas, a partir de técnicas francesas. Eu já fazia a Revista Gula, era meio conhecida, mas os chefs não sabiam direito quem eu era. Eu também já tinha estado no Senac. Mas a melhor dica de chef que eu recebi, nestes anos todos, foi de um profissional do Grande Hotel Guarujá: "nunca pergunte, ande com lápis e papel e anote". Eu também aprendi muito sobre gastronomia nacional com a Maria Flor. E quando eu me vi, estava dentre Chefs famosos no Club Wolkswagen. Enfim, fui conquistando respeito com a minha própria trajetória. E sou amiga deles. O Chef Laurent Suaudeau fez o prefácio do meu livro e ele sempre me chamou de "la mère", que quer dizer mãe em francês. E daí eu virei mãezona de todo mundo. Naturalmente, fui fazendo parte deste mundo, da consulta das revistas, televisão e tudo o mais. A imprensa e as empresas me ajudam muito. Agora mesmo eu fui chamada para fazer a introdução de um livro sobre geléias, que deve ser lançado ainda em outubro pelo Senac. Outra capítulo bacana da minha carreira é a minha participação no Larousse da Gastromia Brasileira, juntamente com Claude Troisgross, Mara Salles, Alex Atala, Laurent Suaudeau, Paulo Martins e até Cora, Coralina... E ainda assim eu continuo a mesma Benê de sempre.

M.A.: Fale um pouco sobre os seus livros.
B.R.: Meu primeiro livro foi pela Editora Campus, vendeu mais de 3 mil exemplares, chamado "Dia a Dia Mais Saboroso". E agora vai sair pela DBA chamado, com revisão de Guta Chaves.

M.A.: E quais são os planos do futuro?
B.R.: O meu sonho? Bem eu já escrevi um livro, já criei minha cachorrinha, já plantei árvores...Bem eu acho que eu ainda queria ter um restaurante com fogão à lenha, com as pessoas a volta, me vendo cozinhar.

M.A.: Como você se ocupa no tempo livre?
B.R.: Levo a cachorrinha Fifi na acumpuntura (risos). Faço também 2 trabalhos sociais na Faculdade São Judas, como patronesse de um curso de 6 meses, para capacitação de pessoas. E também trabalho na Paróquia S. Domingos, na Gastronomia Solidária da psicóloga Sandra Simões.

M.A.: Se o mundo terminasse hoje qual seria o seu último prato?
B.R.: Eu faria um jantar muito gostoso, com todos os amigos convidados, todos sentados. O prato seria um arroz de cachaça com feijão tropeiro e um purê de batata que eu aprendi na Alemanha, finalizando com torta de chocolate, abacaxi e castanha do Pará. Mais ou menos como eu fiz no meu aniversário de 60 anos.

M.A.: E em casa, o que você gosta de comer?
B.R.: Eu como muito acelga, feijão, arroz, ovo, bife, de vez em quando, e adoro uma batata frita.

M.A.: Você cozinha em casa?
B.R.: Sim, sim. No domingo eu vou à feira, compro as verduras e cozinho. É uma delícia.

M.A.: Qual o jeito que você mais gosta de comer berinjela?
B.R.: É com lazanha de berinjela. Eu descasco, corto bem fininha e levo ao forno. Acrescento em camadas molhinho de tomate, manjericão e mussarela. Fica uma delícia.

M.A.: Qual um gosto inconfessável?
B.R.: Adoro um torresmo! De lombo, crocante...E gosto de pão com lingüiça (mas estou proibida, pelo colesterol). Também amo uma maravilha de queijo. Eu também gosto de doce, chocolate, doce de abóbora com queijo frescal. E tem o "suor de moça virgem" (risos). Aprendi a fazer com o Cezar Santos de Olinda, cachaça, folhas de hortelã, leite condensado, tipo batidinha. Muito resfrescante!

M.A.: Quem foi a Madame Berinjela na sua vida?
B.R.: Quem me levou para a cozinha foi minha avó, me ensinou muito, também me ensinou a ser honesta, ter uma religião, respeitar as pessoas para ser respeitada.

M.A.: E o que mais?
B.R.: Queria dizer obrigada a todos que me ajudam e que me dão força, que são muitos, porque uma andorinha só não faz verão, agradecendo também a Deus todas essas oportunidades que ele me dá.
 
 





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