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Muitos estudiosos de todos os tempos reconhecem a Índia como sendo o berço da berinjela. Alphonse de Candolle já sugeria isso em 1882, no seu Origine des Plantes Cultivées, dada a enormidade de registros em sânscrito, bengali e hindu. Para ele, não havia dúvida. A berinjela estava presente na gastronomia da Índia desde os tempos mais remotos, muito antes de aparecerem os primeiros registros na China, no século V. Aliás, uma de suas aplicações na China era bem curiosa: as chinesas aproveitavam a coloração púrpura da berinjela para "polir" os dentes, escurecendo o sorriso e tornando-se, com isso, mais atraentes. Mais tarde, também mereceu destaque o trabalho de Nikolai Vavilov, um geneticista soviético responsável por pesquisar novas plantas, que concluiu que as origens da berinjela estavam mesmo no subcontinente indiano.
Desde o início, a berinjela (Solanum melongena) esteve cercada de misticismo. Acreditava-se que ela tinha poderes alucinógenos e, de fato, algumas de suas variações podiam até matar. Apesar de a berinjela ter mais de duas mil espécies, apenas dois ou três exemplares poderiam realmente fazer dano à saúde humana. Isso causou um certo retardo na adoção da berinjela como alimento no ocidente, uma vez que ela era confundida com suas primas distantes e tóxicas. É de admirar que somente a partir do século XIII essa iguaria começou a ser importada, com regularidade, do oriente para Pisa, Veneza, Gênova, Grécia e algumas cidades portuárias espanholas. Foi também somente no século XVIII que a berinjela atravessou o Atlântico, vinda de Portugal e da Espanha, para tornar-se conhecida nas Américas, ainda que sob olhares duvidosos. O Guia de Dioscórides, um tratado secular sobre plantas medicinais, reforçava as maledicências acerca da berinjela, em sua introdução sobre a "família" das solanáceas. "Somente a ela podemos atribuir um remédio tão cheio de propriedades, encantos e mistérios para a história e para a cultura, já que é uma das raras plantas que possuem o Alraum, a raiz em formato de gente". Hoje em dia, os botânicos aceitam a versão de que a berinjela selvagem (Solanum melongena var. insanum), com propriedades alucinógenas, originária das regiões montanhosas da Índia, representa os primórdios da berinjela que consumimos com muito prazer em nosso dia-a-dia. De qualquer forma, os encantos dessa dama de roxo superam, e muito, o preconceito ancestral. Afinal, ela pode ser apresentada de inúmeras maneiras, como sopa, entrada, prato principal, guarnição, molho, relish, salada, conserva etc.
Cultura:
Outro fator que retardou a chegada da berinjela à mesa dos ocidentais foi a percepção durante muitos séculos de que ela era uma comida típica de "gente pobre" nos trópicos e subtrópicos da Ásia, oeste da Índia e Tailândia. Raramente era vista à mesa das famílias mais abastadas. Até hoje a berinjela se destaca como um alimento importantíssimo, apesar de seu baixo valor nutritivo, para os menos favorecidos na Índia, África e Sul do Saara. Uma quebra de paradigma nesse sentido foi a aparição da berinjela, em 1563, no famoso quadro L'Estate (O Verão), de Giuseppe Arcimboldo, maneirista italiano. A berinjela foi conquistando adeptos a partir da Ásia, juntamente com a profusão do islamismo. Do Egito para a costa da África, daí para Espanha, Sicília e partes do Languedoc, na França. E só então para a América. Na cozinha turca, a berinjela é emblemática: são mais de 30 receitas entre geléias, marmeladas, berinjela com iogurte, legumes e carneiro, purê, caviar, frita, gratinada, assada, empanada etc.
Pratos tradicionais ao redor do mundo:
Caponata - Sicília, terra da berinjela na Itália: berinjela, alcaparra, salsão, azeitona e molho de tomate (v. receita)
Ratatouille - França: berinjela, abobrinha, tomate, pimenta e alho (v. receita)
Mussacá - Grécia: berinjela, carne moída, batata, tomate, alho e azeite (v. receita)
Purê de Berinjela - Turquia: berinjela defumada, amassada com alho e suco de limão
Plantio:
É nos meses de intenso calor que são produzidos os melhores frutos. Para evitar a contaminação de pragas, um método orgânico é o cultivo de calêndula, alho e menta próximo às berinjelas.
Outros nomes:
O botânico Leonardo Fuchs, no século XVI, defendia que "só o nome (da berinjela) já afastava quem quer que fosse que zelasse o mínimo por sua saúde". Bizarro!
Al-bâdinjânâ (Mundo árabe)
Bbantâki, bangana, bartakou (Índia antiga)
Djakatou, koumba, dagatou, diakatou (África antiga)
Oliveira do Congo
Ping Tung (China)
Púrpura-da-china
Solanum melongena (Nome científico)
Tomate-de-constantinopla (Antigüidade)
Yamamoto (Japão)
Baigani (Trinidad e Tobago)
Mad Apples (Inglaterra na Idade Média)
Curiosidades:
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"Berinjela é sempre um mistério porque tudo está escondido sob a casca que a protege" - Patrícia Wells |
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Os frutos são compostos de água em 90%. Mas possuem vitaminas B e C, além de minerais e cálcio. |
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Possui 75 tipos diferentes e mais de 2000 espécies, entre elas a Atropa belladona, bastante tóxica. |
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O nome berinjela tem sua origem em dialetos indianos. Vem da raiz bangha, que significa "planta venenosa". |
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Na Itália, também foi da denominação mala insana (maçã louca) que surgiu melanzana. |
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Anualmente são consumidas mais de 5 milhões de toneladas de berinjela em todo o mundo. |
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Só os italianos consomem quase a totalidade das 300 mil toneladas que produzem. |
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Os japoneses são os maiores consumidores asiáticos da berinjela atualmente, somando 5 kg por ano, per capita. |
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É de autoria da princesa árabe Buran a receita Buraniya, uma das iguarias mais antigas de que se tem notícia preparada com berinjelas no Oriente. Existe até um poema em homenagem a ela, "Berinjelas de Buran". |
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John Parkinson, autor inglês do Theatrum Botanicum, foi o primeiro botânico a notar que adicionar vinagre ao preparo da berinjela poderia diminuir os riscos à saúde. |
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Foi no Hortus Eystettensis, o livro de jardim do Bispado de Eichstatt, na Bavária, publicado em 1613, que se tem notícia da primeira ilustração da berinjela roxa, como conhecemos hoje. |
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Mas ela também pode ser encontrada em branco, vermelho claro, amarelo, verde e casca de ovo. Há até espécies que apresentam listras. |
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Até hoje na Inglaterra e nos Países Baixos a berinjela só cresce em pouca quantidade, em estufas. |
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Por muito tempo a berinjela foi somente uma planta ornamental. O respeito a ela como iguaria só surgiu após sua chegada à França. |
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A maioria dos grandes incêndios de Istambul até o começo do século XX foi atribuída às berinjelas e seus braseiros. |
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A farinha de berinjela pode ser usada para enriquecer biscoitos, pães e massas por seu alto teor de fibras. |
Cuidados no preparo:
Asse, ferva, frite, congele, conserve, salteie etc. Só não se esqueça de:
Evitar o uso de utensílios ou pratos metálicos. Isso descolore a polpa.
Para amenizar o "amarguinho" que incomoda algumas pessoas:
- Polvilhe um pouquinho de sal para secar a berinjela de 30 a 60 minutos antes de usar.
- Depois esprema levemente para extrair o líquido que se desprende.
- Lave em água fria.
- Esprema novamente para continuar o preparo.
- Prepare a berinjela imediatamente após o manejo ou ela ficará escura.
- Para que isso não aconteça, pode-se submergir a berinjela em água fria, adicionando-se uma colher de suco de limão ou vinagre.
Por seu alto poder de absorção, é desfavorável o uso de ervas, temperos muito marcantes e muito óleo, que acabarão por descaracterizar totalmente o sabor da berinjela.
O melhor é usar azeite de oliva e assá-la no forno. |
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